
Nos anos 70 surgiu uma motocicleta enorme e pesada que ficou famosa pelo Brasil inteiro e até no exterior: a Amazonas. Tudo começou quando os mecânicos Luiz Antônio Gomi e José Carlos Biston, grandes fãs de motos custom de marcas como Harley Davidson e Indian, tiveram uma ideia de instalar motor e câmbio do Volkswagen 1500 à ar que foi batizada de Motovolks.
Como era uma moto com mecânica de automóvel possuía marcha a ré, mas para não haver confusão na hora de trocar as marchas, fizeram uma alavanca com acionamento manual. Já as demais marchas eram trocadas no pé esquerdo como numa motocicleta comum.
Em 1978, o grupo de investidores Ferreira Rodrigues de São Paulo se interessou no projeto dos mecânicos. Como as importações no Brasil proibidas na época, o grupo enxergou uma oportunidade de comercializar motos estradeiras e fundaram a Amazonas Motos Especiais (AME). A fábrica ficava no Bairro da Pena, na Zona Leste de São Paulo e passou a comercializar os modelos Turismo Luxo, Esporte Luxo e Militar Luxo.

A Amazonas foi a primeira motocicleta de produção no mundo a ser dotada de marcha ré e, por muitos anos, foi a de maior volume mecânico do planeta! Se ainda quisesse deixá-la ainda mais volumosa e chamativa tinha side car como opcional, podendo transportar um terceiro passageiro.
Todas os modelos vinham com motor Volkswagen 1600 boxer de quatro cilindros com 56 cv a 4200 rpm e torque de 10,8 kgfm a 3000 rpm. A moto era muito pesada, sendo superior a 380 kg e com o side car poderia passar dos 500 kg, mas a moto tinha tanque de 30 litros.
A Amazonas tinha manutenção fácil, já que era uma salada de peças de carros vendidos no país, tendo componentes da linha Volkswagen e de outras fabricantes nacionais como Ford e até Mercedes-Benz. Mesmo assim a moto era muito cara, valendo o equivalente ao preço de seis motos Honda CG-125.

A AME expandiu seus negócios e também passou a fazer réplicas em fibra de vidro do Porsche 550 Spyder, porém a fábrica interrompeu a produção das motos em 1988. Por serem muito caras, só 450 motocicletas foram fabricadas, sendo que 100 foram para as polícias rodoviárias do país.
As motos Amazonas também teve unidades exportadas para os Estados Unidos, Japão e Europa. Por serem raras são muito valiosas hoje em dia, mesmo sendo um projeto pouco lapidado e com soluções que beiram o amadorismo.
O fim da Amazonas e o nascimento da Kahena
Porém Luiz Gomi e José Biston já estavam em um novo projeto para suceder a Amazonas que era bem mais refinado e, em conjunto com o mecânico e torneiro Luiz Carlos ‘Corote’, criaram as motos Kahena. Em 1991 elas foram exibidas no Salão Duas Rodas e em 1992 passaram a ser vendidas ao público.
As motos eram fabricadas na empresa Tecpama (Técnica Paulista de Máquinas), cuja sede também era em São Paulo, capital. A Kahena era um projeto bem mais evoluído de que a Amazonas, com uma carenagem cobrindo todo o motor e a mecânica continuava sendo o Volkswagen 1600.
O conjunto dianteiro de dois faróis redondos lembrava a Suzuki GSXR da época e sua traseira e lateral lembravam vagamente a Kawasaki ZX-11R. Seu quadro era em alumínio batizado de Tecbox e sua suspensão traseira era monobraço.
No primeiro ano de produção a Tecpama fez vinte unidades e se comprometia em realizar manutenções na casa do cliente e até comprar a moto de volta em caso de insatisfação. O primeiro modelo feito pela Kahena se chamava LJ-16 e no ano seguinte lançam a SS-1600 com visual mais esportivo e a touring ST-1600.

As motos desenvolviam 65 cv a 4600 rpm, mas havia opção de uma versão mais apimentada com dois carburadores Brosol 32 que fazia a potência alcançar os 90 cv a 5800 rpm. O câmbio era compacto e de projeto próprio, mas as engrenagens internas eram as originais da Volkswagen, tendo quatro marchas mais ré.
Com tantas melhorias a moto emagreceu mais de 60 kg em relação a Amazonas, pesando ‘apenas’ 320 kg. Em 1994 fizeram a versão PRF-1600 para a Polícia Rodoviária Federal, que outrora fora a maior cliente da Amazonas. As vendas da Kahena estavam prosperando e estavam exportando para o Japão, Europa e Estados Unidos.
Porém, o Plano Real tornou a moeda brasileira ficou muito forte, sendo que US$ 1,00 valia só R$ 0,82. Diante desse cenário a empresa teve de rever seus contratos e cancelou pedidos, já que a exportação se tornou inviável. Em 1995 lançaram a versão Custom 1600, uma configuração muito pedida por seus clientes.
Após a Kahena Custom, a Tecpama não fez mais lançamentos e encerrou a produção das motocicletas em 1999 após 434 unidades vendidas, sendo que 163 foram exportados. Em 2003 a empresa voltou a se chamar AME e até apresentou uma custom dois cilindros boxer de 800 cm³ feito na China, mas não passou da fase de protótipo.
Em 2008, a AME apresentaram motos com volumes de 125 a 250 cm³ (sendo que a última tinha dois cilindros). As motos eram de origem chinesa, feitas pela Loncin, mas vendidas como Amazonas. Entretanto a produção não durou muito tempo, sendo encerrada ao início dos anos 10.
