
A partir dos anos 30, as corridas no deserto de sal em Bonneville, no estado do Utah começaram a ganhar força por conta de constantes quebras de recordes de velocidade. Muitos que não tinham boas condições financeiras decidiram explorar seus limites na superfície que é reta e bem lisa em boa parte do trajeto.
Logo foram criados trajetos e regras para que os pilotos pudessem correr. Muitos hot-rodders (como eram chamados os preparadores/pilotos de carros modificados) começaram a ganhar fama e um deles era William ‘Bill’ Burke, que era considerado um dos pilotos mais rápidos de Bonneville.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Burke foi convocado para servir as Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial e foi servir no Pacífico Sul. Durante o serviço, Burke conheceu de perto os aviões de combate do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos.

Uma das coisas que lhe despertava a imaginação foi o tanque de combustível extra que era instalado na parte inferior da aeronave, lhe conferindo uma espécie de ‘barriga’ e por isso que chamavam de belly tank. Bill observou as dimensões do tanque e a boa aerodinâmica, sendo possível instalar um chassi de automóvel para correr.
Assim que a guerra acabou, Burke voltou para casa e logo já arranjou um chassi de Ford T e V8 Flathead de um Ford 1934, além de um tanque de 165 galões (quase 625 litros) de um avião North American P-51 Mustang. Já na primeira corrida conseguiu a respeitável velocidade de 212 km/h, mas como o tanque era pequeno, Burke ficava com a cabeça para fora do veículo improvisado.

Dessa forma, Burke logo arranjou um modelo maior com 375 galões (quase 1420 litros) onde ele pôde ficar completamente escondido na carroceria, melhorando a aerodinâmica e seu desempenho começou a chamar a atenção de muitos preparadores, que logo começaram a usar tanques de avião para desenvolver seus projetos.
Alguns deles foram Tom Beatty e Barney Navarro, que estavam quebrando a cabeça para superar a concorrência. Logo eles montaram um Ford T com V8 Flathead equipado com supercharger tirado de um Detroit Diesel 3-71 e instalaram quatro carburadores Stromberg 48, onde conseguiram ótimo desempenho, mas a aerodinâmica ainda ficava a desejar.
O belly tank de Beatty e Navarro
Inspirados no sucesso de Burke, Beatty e Navarro criaram um modelo feito com tubos soldados, instalaram suspensões traseiras independentes e mexeram na relação de marchas, criando assim um novo tipo de carro. O carro deles não era exatamente um belly tank retirado de avião, mas sim uma carroceria criada do zero que possuía formato parecido.
Para o novo carro, a dupla pegou um Flathead da Mercury de 4.9 litros equipado com blower e abastecido com etanol e posicionaram o motor na central-traseira para melhor distribuição de peso. Já na estreia em 1951, Tom Beatty pilotou o carro e já atingiu espantosos 302 km/h se tornando no mais rápido do evento e da história de Bonneville!

Com a vitória, a fabricante de escapamentos Belond passou a patrocinar o carro e trocaram a cor de preto para branco e vermelho. Com o patrocínio, Beatty encomendou uma nova carroceria em alumínio e continuou a aperfeiçoar a mecânica, onde conseguiu 327 km/h em 1952 e se tornou capa da conceituada revista Hot Rod.
Em 1955, o carro passou a ser patrocinado pela fabricante de blower Weiand e alcançou 340 km/h! O carro de Beatty e Navarro não era bom somente em retas, como também em curvas e assim fez demonstrações no extinto autódromo oval de terra Carrell Speedway, que ficava em Gardena (California) e fez o público ir ao delírio com a poeira alta levantava pelo carro.
No deserto de sal, Beatty era famoso por terminar suas corridas com um cavalo de pau a aproximadamente 300 km/h!! Encorajado pelo sucesso, Beatty abriu sua própria loja: a Tom Beatty Automotive Engineering em Sun Valley, no estado da California.

Com a popularização dos V8 com válvulas no cabeçote, Beatty arrumou um Oldsmobile equipado com blower de Detroit Diesel 6-71, seis carburadores Stromberg e câmbio Ford, onde alcançou 373 km/h em 1958 e em 1959 outro recorde: 384 km/h! Nessa época, os carros de corrida mais velozes mal conseguiam passar dos 300 km/h.
Beatty ainda modificou um câmbio GM Hydra-Matic e instalou um diferencial de mudança rápida da Halibrand. Com isso, o carro poderia sair para correr sozinho sem a ajuda de uma caminhonete para empurrar pra pegar embalo.
Em 1962, Beatty conseguiu mais um recorde: 390 km/h! E em 1963 ele atingiu 405 km/h de velocidade máxima (!!!) que não foi oficializado porque só atingiu a velocidade na ida, pois na volta o carro apresentou problemas. Beatty não conseguiu mais superar o feito, pois se aposentou das corridas pouco tempo depois.
Após a aposentadoria, Tom Beatty passou a se dedicar a sua oficina, onde exibia sua criação com orgulho. Um certo dia, ele decidiu vender a empresa com tudo dentro, incluindo o carro recordista e faleceu pouco tempo depois em 1966.
O carro original passou por muitas mãos e até perdeu seu motor, mas tempos depois conseguiram reencontrar a mecânica e reinstalaram de volta. Agora ele está no Museu da Ford e volta e meia é exibido em Bonneville ou eventos da cultura hot-rodder, sendo que até hoje todos surpreendem com as façanhas do carro que conseguiu passar dos 400 km/h usando recursos e materiais realtivamente simples!
